Autoestima, Girl Power

Rosa é coisa de menina?

Rosa é coisa de menina?

Assim que a ministra Damares apareceu naquele vídeo infeliz falando que meninos usam azul e meninas usam rosa, eu fiz um post lá no instagram falando do quanto essa declaração é perigosa, tanto para adultos quanto para crianças – especialmente para as crianças. Mas, por também ser psicóloga e saber que essa questão vai muito além da cor da roupa, resolvi falar mais sobre isso e explicar porque dizem que rosa é coisa de menina.

O que é coisa de menina na moda? Um pouco de história

Pra gente começar a entender de onde vem isso tudo, precisamos falar que lá atrás, no século XVIII, TODAS AS CRIANÇAS até os 5 anos de idade usavam VESTIDO BRANCO, independente do sexo, porque era considerado uma peça fácil de trocar a fralda. Isso era cultural e bem aceito pela sociedade.

Se a gente acelerar um pouco a história, mas ainda falando de bem antes da revolução industrial (século XIX), a gente lembra que as mulheres não tinham muitos direitos civis, e que com a ida dos homens para a guerra, as mulheres começaram a trabalhar fora.

Esse movimento não aconteceu por feminismo e por elas quererem trabalhar, e sim por uma questão de necessidade, tanto para as famílias quanto para os países, já que as máquinas nessa época exigiam mais habilidade e menos força, e a mão de obra feminina era facilmente explorada.

Durante a segunda guerra mundial as mulheres usavam, para trabalhar, o uniforme que os homens usavam, e isso incluía a calça comprida, que até então, era considerada “coisa de homem”.

Só em 1944 as mulheres começaram a comprar calça comprida para usar nos momentos de lazer, ou seja, fora do ambiente fabril. Também foi nessa época (década de 30) que o rosa passou a ser considerado coisa de menina.

Antes disso, o rosa era considerada uma cor mais forte, e por isso, associada ao masculino, enquanto o azul, que remetia à delicadeza, era associado ao feminino. Mas, para que o comércio pudesse vender mais roupas durante o período pós-guerra e reconstrução dos países, o marketing inverteu essas mensagens, e oficialmente o rosa virou coisa de menina.

Aquele vestidinho branco que as mães faziam para vestir o primeiro filho era passado para os filhos mais novos, e depois para outras gerações, e essa invenção de marketing começou a falar em cor de menino e cor de menina tanto para as crianças quanto para adultos, e isso movimentou a economia – como faz até hoje, com as mudanças de estação e novas tendências, que criam, o tempo todo, novas “necessidades”.

Só nos anos 60 que começou a ter distinção de peças femininas e masculinas com detalhes na silhueta, cor, estampa e textura. Obrigada, Dior e Chanel por isso!

Nos anos 80, com a chegada do ultrassom, as mulheres conseguiam saber com antecedência se o bebê era menino ou menina, e podia fazer um enxoval com cores menos neutras, como era antes. Assim, se a mulher estava grávida de uma menina, comprava roupinhas rosas e outras “coisas de menina”, e se fosse um menino, roupinhas azuis e coisas de menino.

O que é coisa de menina na sociedade atual

Quando a gente fala de coisa de menina hoje em dia, principalmente em questão de roupa, podemos dizer que as mulheres podem usar o que quiserem (tirando, claro, a necessidade de se tampar mais por medo de ser violentada ou de ser julgada pela forma que se veste), mas só as mães mais “moderninhas” e as feministas conseguem vestir os meninos com cores diferentes do tradicional azul.

Assim como no discurso da ministra Damares, a cor da roupa não seria nenhum problema, se fosse apenas uma cor de roupa. Mas o caso é que isso é apenas a representação do que seja considerado, ainda hoje, em pleno 2019, coisa de menina e coisa de menino.

Isso sai da questão de moda e passa pelos brinquedos, que também são separados por sexo, e pela forma como meninas e meninos são criados. As meninas começam a ajudar nas coisas de casa já cedo, e aprendem com os seus pais o que podem ou não fazer, de acordo com o conceito de certo e errado de seus pais, assim como o conceito do que seja “coisa de menina decente”, que influencia não somente na sua personalidade, como no seu estilo, como eu já falei aqui.

Um estudo mostrou que hoje os homens morrem mais de suicídio que de HIV, e isso acontece porque os meninos são criados para não falarem de sentimentos, não podem se sentir fracos, frágeis, não podem não parecer fortes e másculos o tempo todo.

E sabe porque isso tudo acontece? Porque hoje existe a chamada ideologia de gênero, que é idealizar o que são coisas de menina / mulher e o que são coisas de menino / homem. E isso nada mais é que ajudar a perpetuar o machismo e a inferioridade feminina, já que essas coisas não são as mesmas.

Ideologia de gênero x Identidade de gênero

Precisamos entender que independente de vestir azul ou rosa, eu continuo sendo uma mulher. Eu nasci mulher, tenho vagina, seios e útero. E independente de usar azul ou rosa, um homem continuará sendo homem e tendo pênis. Isso é questão de GENÉTICA.

Um homem que gosta de outros homens é chamado de homossexual, assim como uma mulher que gosta de outras mulheres. Existem homens homossexuais que usam rosa e estampas consideradas mais delicadas e femininas, como floral, e homens homossexuais que usam cores neutras e estampas mais clássicas. Isso é questão de sexualidade, ou seja, ORIENTAÇÃO SEXUAL.

Um homem que se identifica como mulher pode gostar de homens ou de mulheres, de acordo com a sua orientação sexual, e se veste como mulher por causa da sua IDENTIDADE DE GÊNERO.

A cor da roupa não influencia na personalidade e na sexualidade

Quando a gente começa a proibir as crianças a escolherem a cor que vão usar ou o brinquedo que vão brincar, a gente só está impedindo a sua liberdade de escolha e de transmitir quem ele é.

Muitas pessoas ainda acham que isso vai impedir que eles tenham uma orientação sexual ou identidade diferente da desejada (ou seja, que um homem seja gay ou trans, por exemplo), quando na verdade, pasmem, só se trata de ROUPAS! E é disso que a fala da ministra Damares se trata, e por isso é tão importante falar sobre isso.

Na foto, o Premiê de Luxemburgo, que foi o primeiro líder gay da União Europeia a se casar, em 2015.

E pra finalizar, eu posso afirmar que na faculdade de psicologia eu aprendi que as pessoas já nascem para serem o que elas são. Elas só se descobrem mais cedo ou mais tarde, com mais ou menos dor e sofrimento, de acordo com a forma como são criadas. Então, o seu filho vai ser gay mesmo usando roupa azul e brincando de carrinho, não lavando a louça e sendo ensinado o que é coisa de menino e de menina. E ele pode se identificar como mulher mesmo usando roupas de menino e sendo criado como menino. Você não pode fazer absolutamente nada pra mudar isso… a não ser deixar que ele seja o que é.

Se eu, como mulher hetero, usar calça jeans e camiseta azul, as pessoas vão continuar me vendo como uma mulher. Esse é um privilégio meu, e eu reconheço isso, mesmo quando eu tento militar pelas pessoas que não tem esse mesmo privilégio, ou quando eu venho aqui falar do que, pra mim, é tão óbvio.

Mas um homem de rosa sofre preconceito. E esse preconceito é ainda maior se ele for gay ou trans, e como esse não é o meu lugar de fala, vou indicar o perfil da Maria Clara no instagram, que tem muito o que nos ensinar sobre a travestilidade e o transfeminismo.

 

 

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