Dress code, Girl Power

Sobre dress code e o decote da deputada Ana Paula da Silva

Sobre dress code e o decote da deputada Ana Paula da Silva

Desde que a deputada Ana Paula da Silva (ou Paulinha) apareceu com o seu macacão vermelho decotado no dia da sua posse eu estou com essa página aberta no computador para falar sobre o assunto, mas não queria falar mais do que todo mundo já falou, e por isso o texto demorou um pouco mais pra sair.

E tem acontecido tanta coisa nesse des(governo) que só o fato de o também deputado Amauri Ribeiro ficar com a sua mulher, Cristhiane, sentada no seu colo durante a cerimônia de posse enquanto usava chapéu (que não é permitido pelo regimento da Assembleia Legislativa) já serviria como contra-argumento e prova de que as críticas ao decote da deputada Ana Paula da Silva vai muito além de dress code, mas que é sim, um caso de machismo.

Pra completar, na semana passada, o presidente de 55,16% da população brasileira apareceu numa reunião importantíssima (onde decidiram que vamos aposentar mais tarde) de chinelo, calça de nylon e camisa de futebol falsificada.

Não é a primeira vez que o presidente aparece mal vestido em reuniões oficiais numa tentativa de parecer humilde (ele sabe a importância da imagem e o que a roupa comunica, e nunca fez isso durante as 3 décadas na Câmara dos Deputados) apesar dos seus três salários (já que ele ganha como presidente, como ex-militar e a sua aposentadoria)… além disso, como militar, uma das coisas que ele deveria saber é obedecer às regras e zelar pelas suas roupas e pela forma como se apresenta, já que as forças militares valoriza a apresentação das fardas e pune quem não está vestido de forma adequada.

Mas, tirando a má intenção do presidente de lado, vemos que como homem, tanto ele quanto o deputado Amauri Ribeiro saíram dessas situações sendo vistos simplesmente como “homens simples”, enquanto a deputada Ana Paula foi xingada e até sofreu ameaças e ouviu menções ao estupro.

O Dress code deve ser respeitado

Quem já acompanha o meu trabalho sabe que antes de ser consultora de estilo eu trabalhei 11 anos como psicóloga organizacional em Recursos Humanos e por isso eu sempre falo que todo dress code deve ser respeitado – por todo mundo, incluindo o presidente.

Quando a deputada Ana Paula da Silva apareceu com o macacão vermelho decotado e justificou com o fato de o dia da posse ser um dia de festa, eu discordei instantaneamente. A festa de final de ano da empresa também é uma festa, mas é um evento corporativo, e nessas situações, o que deve prevalecer, sempre, é a sua imagem corporativa.

E é aí que entra o “detalhe” que me incomodou todos esses dias: A nossa imagem corporativa (feminina) passa pelo conceito de profissional competente, inteligente, confiável e…respeitável! E uma mulher não pode ser tudo isso enquanto usa um macacão vermelho decotado.

O decote da deputada Ana Paula da Silva

O decote da deputada Ana Paula da Silva incomoda não porque ela não está obedecendo ao dress code, mas sim porque ela assume que é uma mulher bonita e que gosta do seu corpo, e que se sente bem com a sua imagem – que não interfere na sua desenvoltura profissional, visto que a sua carreira política tem vários feitos importantes – e outros modelitos ousados!

O conceito de adequado é sim uma forma de controle, e quando falamos de dress code profissional, é uma forma de controlar a imagem profissional dos funcionários. Um decote nunca é adequado no ambiente de trabalho, independente de ser um local informal – mas esse conceito de inadequação passa pela falta de naturalidade em ver o corpo feminino sendo exposto por ela mesma (por isso um nude vazado é valorizado e uma mulher postando foto dela seminua é xingada pelos mesmos homens) e pelo excesso de sexualização da mulher.

Apesar de todas as ofensas e críticas, ela decidiu se manter firme no seu estilo pessoal e no seu conceito de adequado, e repetiu o decote e a renda (que também é ousado e sexy pro ambiente de trabalho) e comprou a briga: a roupa dela virou uma questão política, porque sim, tudo na vida é política em algum nível!

Ser sexy no trabalho é errado?

A metodologia do meu trabalho é baseada nas prioridades das clientes da consultoria de estilo, e eu já tive algumas clientes que são sensuais e gostam de se vestir de forma mais sexy, inclusive no trabalho.

Nesses casos, o meu papel, como quando atendo qualquer cliente, é adequar o estilo dela ao que ELA considera bonito e feio, certo e errado, mas dando o meu parecer profissional, tanto como consultora de estilo quanto como profissional com experiência em recursos humanos, não simplesmente para que ela obedeça às regras, mas para que ela se sinta coerente com quem ela é enquanto obedece às regras do dress code.

Nessa foto, duas das minhas clientes, ambas com cargos formais, em looks mais ousados para adequar o seu estilo pessoal ao dress code:

Nesse segundo look da deputada Ana Paula da Silva, ela está menos sexy não somente por estar com menos pele à mostra (a renda mostra a pele escondendo), mas também pela cor mais neutra, que chama menos a atenção que o vermelho. É esse o ponto que cada mulher deve achar, de acordo com o seu estilo e ambiente de trabalho.

Mas, a questão desse texto é fazer pensar no que realmente a família tradicional brasileira acha errado: Uma mulher se mostrar como um troféu dela mesma é errado, mas um homem colocar uma mulher no colo no mesmo ambiente como troféu dele não é. Usar decote fere o dress code, mas chapéu, camisa falsificada (que inclusive entra no crime de pirataria) e chinelo não é errado…

A hipocrisia impede que as pessoas deem nome ao seu discurso. Se é errado desobedecer ao dress code (o que eu concordo), é errado pra todo mundo. Se só é errado pra mulher, o nome disso é machismo sim.

Eu lamento que isso tudo esteja acontecendo em pleno 2019. Lamento como brasileira e como mulher. E continuo esperando dias melhores.

 

 

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