Consumo Consciente

Comprar na Forever 21? Não, obrigada!

Comprar na Forever 21? Não, obrigada!

Nos últimos dias, a minha timeline do Facebook e Instagram só fala do anúncio da Forever 21 em vender tudo a um preço único de R$49,90 numa de suas lojas, em São Paulo. Tem amigas que estão loucas para ter essa promoção na loja mais perto de onde elas moram, tem quem esteja rezando para a Nossa Senhora do Cartão de Crédito pra proteger elas da tentação, tem quem esteja planejando as compras de Natal da família toda, e tem as minhas amigas que trabalham com moda e entendem de consumo consciente, que assim como eu, estão indignadas com a cegueira coletiva.

O meu trabalho como consultora de estilo vai muito além de falar de moda. O meu trabalho tem propósito, tem significado, e consiste também em gerar valor e questionamentos às minhas clientes ou a quem me lê aqui, para que entendam que todos nós fazemos parte da grande engrenagem que é o mundo, e que enquanto tiver gente que paga R$20 numa calça jeans (que a marca paga menos de 1 dólar para a fábrica), e enquanto os impostos para pequenas empresas forem tão altos, vai parecer melhor pagar R$40 numa blusa na fast fashion do que R$100 numa marca independente, que paga mais caro pela mão de obra da costureira, pelo tecido, pelo corte, pela estampa, pelo design (e tudo isso tem um preço), e que por isso precisa repassar o custo pro cliente final.

Quando a gente compra de fast fashion, a gente incentiva esse tipo de coisa, a gente deixa a roda continuar girando como ela está girando hoje. Eu compro na C&A e Renner e não me orgulho disso, mas compro bem menos que antes, e sempre compro de marcas independentes, e incentivo as minhas clientes a comprarem também, porque quando a gente compra do pequeno, a gente incentiva não só a democratização da moda e a valorização da mão-de-obra local, mas a gente ajuda a distribuir melhor o dinheiro.

Forever 21 no Rio de Janeiro

Em 2014, quando a rede de lojas chegou ao Rio (no shopping Village Mall, na Barra) foi uma loucura. Teve distribuição de senhas para acesso à loja, filas para entrar, filas para experimentar as peças, filas pra pagar…

Eu fui, quase 2 meses depois da inauguração, e saí de lá de mãos vazias. Gostei de bem poucas coisas, e não valia a pena encarar a fila (sim! ainda tinha fila!) pro provador e pro caixa, então deixei os itens lá e voltei pra casa com menos roupas, mas menos pobre. Roupa barata não é tão barata assim.

Depois disso, o Rio já ganhou uma loja no Barra Shopping, no shopping do aeroporto Santos Dumont (onde eu comprei uma meia pra não ficar com frio no voo) e mais recentemente no shopping Rio Sul.

Roupa cara x roupa barata

Pra quem gosta de variar roupa o tempo todo, ter quantidade e usar tudo que está na moda, a Forever 21 (e outras lojas de fast fashion) parecem o paraíso, porque possibilitam isso a preços baixos (vamos ver que não é tão baixo assim). As fast fashion popularizaram a moda e dão a oportunidade de todo mundo usar hoje o que as grandes marcas mostraram nos desfiles de moda ontem (a um preço que você “pode” pagar), mas só quem ganha nisso tudo, é o dono das lojas de fast fashion (que não são as únicas a usarem trabalho escravo e a venderem barato, mas são as maiores).

Para conseguir vender barato, o dono da fábrica precisa aceitar receber mais barato pelas peças, e pagar mais barato para as suas costureiras. O dono da fábrica não ganha, a costureira não ganha e você não ganha. Você acha que pode comprar muito e ter mais peças, e continua fazendo a roda girar e incentivando esse tipo de coisa, que faz mal pra sociedade, faz mal pro planeta, e faz mal pra você, que está consumindo moda rápido demais, e gastando mais do que poderia, só porque é “barato”.

Nem sempre preço alto significa qualidade, e eu não quero te convencer a parar de comprar peças baratas, principalmente se não cabe no seu orçamento. É que o material utilizado em peças mais baratas geralmente é de qualidade inferior, e duram menos. Durando menos, você vai precisar se desfazer da peça logo, e comprar outra pra substituir, e gastar de novo. Entende? E é assim que o barato sai caro. Veja aqui o que olhar na etiqueta das roupas.

Enquanto as marcas fazem 4 coleções por ano (uma pra cada estação), lojas como a Forever 21 têm uma coleção por semana, e se você acredita que tem que ter tudo que eles dizem que você tem que ter, você compra pelo menos uma blusinha nova por semana, e tem a sensação de que pode comprar muito porque está sempre comprando, e acha que não gasta muito porque as peças são – quase sempre – baratas. Mas quantidade é diferente de qualidade, e provavelmente você continua com a sensação de não ter nada pra vestir, mesmo com o guarda-roupas abarrotado.

Então é só pra comprar peças caras daqui pra frente? Ou pra parar de comprar? Nenhuma das duas coisas. Comprar consciente não significa deixar de comprar, porque o preço não pode ser o fator decisivo na hora de comprar ou não uma roupa. A ideia é você se questionar. Questionar se precisa mesmo comprar tanto, como as peças foram produzidas, pra onde elas vão quando você descarta, se compra roupas mais caras por causa do status que elas oferecem, se compra peças baratas porque elas são realmente bacanas (cabem na sua rotina, vestem bem na sua silhueta, combinam com o seu estilo, são versáteis e rendem várias coordenações com o que você já tem, etc.) ou só porque são baratas, e por aí vai.

Avaliando o custo x benefício das peças

Pra você saber se uma peça é barata mesmo, vale calcular o custo x benefício delas. Assim:

Você vai na Forever 21, e sabe que só pode gastar R$100, e resolve comprar 3 blusas de R$30 ao invés de comprar a calça jeans que experimentou em outra loja, porque ela custava exatamente os R$100,00 do seu orçamento. Vamos comparar a usabilidade das peças:

Se você levasse a calça jeans, ela vai durar em média 5 anos (ou mais, mas vamos usar 5 para fazer a conta), e você vai usar pelo menos 4 vezes por mês. Então, (4 vezes x 12 meses) x 5 anos = 240 usos. Cada vez que você usar a calça, ela vai ter custado R$0,41 (preço da calça dividido pela quantidade de usos).

Levando as blusas, cada uma vai durar em média 6 meses (porque o tecido logo vai encher de bolinha e porque logo vai sair de moda), e você vai usar pelo menos 2 vezes por mês. Como a gente se comunica através do rosto, as pessoas reparam muito mais no que a gente veste na parte de cima do que na parte de baixo. Se você repetir a mesma calça ou saia (mesmo colorida ou estampada) a semana toda, é provável que a maioria das pessoas não repare. Mas, se repetir a mesma blusa duas semanas seguidas, a possibilidade de repararem é maior. A proporção ideal é que você tenha 5 peças de cima para cada peça de baixo, para ter mais possibilidades.

Então, (2 vezes x 6 meses) = 12 usos. Cada vez que você usar cada blusa, ela vai ter custado R$2,50.

Apesar de as blusas parecerem mais baratas, além de o custo por uso da blusa ser muito mais alto, você vai precisar substituir por outra peça antes de precisar substituir a calça, fazendo com que o custo com essa peça seja ainda mais alto.

Somado ao custo x benefício da peça, você vai precisar considerar quantas coordenações ela rende para saber se ela combina com pelo menos outras 3 peças que você já tem, pra evitar ter que comprar mais peças para coordenar com essa peça nova, que não combina com nada. Eu falei sobre o que considerar na hora da compra aqui.

No começo, eu sei que vai parecer complicado fazer todas essas contas enquanto está no provador, mas é melhor que pagar mais caro por algo que não vale, né?

O ex-presidente do Uruguai, José Mujica, disse uma vez: “O que estamos gastando é tempo de vida. Porque, quando compramos algo, não pagamos com dinheiro, compramos com o tempo de vida que tivemos que gastar para ter esse dinheiro. Mas tem um detalhe: tudo se compra, menos a vida. A vida se gasta”.

Esse texto é pra te fazer pensar: Você tem gastado a sua vida da melhor forma?

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