Autoestima

A sapatilha de balé marrom e a representatividade

A sapatilha de balé marrom e a representatividade

Eu sempre acreditei que a moda era uma poderosa ferramenta de empoderamento, e que pode contribuir para a autoestima das pessoas, mas isso é muito mais que deixar o seu corpo mais bonito e o seu look mais coerente com quem você é, e por isso eu sempre digo que consultoria de estilo é mais que roupa.

Sapato nude em tons diferentes

Eu já falei aqui sobre a importância de as empresas começarem a vender sapatos com tons de nudes diferentes, já que nude é um tom próximo à cor da pele, e por isso não pode ser visto como um tom único – especialmente no Brasil, onde existem tantos tons de pele diferentes!

Poder comprar um sapato nude no tom da sua pele é muito mais que poder ter uma ferramenta para alongar a silhueta, e sim se ver representada pelas marcas, saber que as marcas reconhecem as diferenças humanas.

Sapatilha de balé marrom

No começo do mês eu vi a notícia de que finalmente estava sendo fabricada a sapatilha de balé marrom. Apesar de ser branca e de só ter feito balé na minha infância, essa notícia me deixou muito feliz, porque o mundo que eu quero é um mundo onde as mulheres negras tenham direitos iguais.

É maravilho que elas não precisem mais perder tempo com um processo conhecido como pancaking, que é pintar a sapatilha de balé (que até então só era vendida num tom próximo ao rosa – que por muito tempo foi considerado o tom nude universal) para que a sapatilha ficasse num tom próximo ao seu tom de pele.

Apesar de as professoras e diretoras saberem que não existia no mercado uma opção de sapatilha de balé em outras cores, essa exigência fazia com que as bailarinas negras ou morenas gastassem dinheiro comprando produtos como base para pintar as sapatilhas, além de gastar quase 45 minutos com cada par de sapatilha, quase todos os dias!!!

É impossível falar dessa notícia e não falar de privilégio branco, que não é sobre o que nós brancos TEMOS, e sim sobre o que a gente NÃO PRECISOU PASSAR pra ter. Milhares de bailarinas brancas nunca perderam tempo e dinheiro com as suas sapatilhas como as negras, e eu fico feliz que isso esteja finalmente mudando!

Representatividade importa

Esse processo não era só uma perda de tempo e de dinheiro, e sim uma forma silenciosa e cruel de fazer essas mulheres sentirem que aquele não era um lugar pra elas, e que a cor delas não era adequada.

E foi exatamente isso que a empresa Freed of London considerou na hora de fabricar  os dois modelos pensados para dançarinas não-brancas, sendo uma marrom e outra bronze.

Por mais que a grande maioria de bailarinas ainda seja de mulheres brancas, as poucas bailarinas não brancas precisam se sentir representadas, precisam saber que se elas quiserem, esse lugar é delas também!

Pesquisando sobre o assunto, conheci a história da bailarina carioca Ingrid Silva, que é mundialmente conhecida e integra há dez anos o time do Dance Theater of Harlem, em Nova York.

A Ingrid Silva ensina a técnica do pancaking no seu canal do Youtube. Vale a pena ver o vídeo e sentir empatia por essas mulheres, e entender o quanto essa notícia é importante:

É importante dizer também que apesar da evolução, ainda vemos as coisas acontecerem a passos pequenos. A tradição do balé também faz com que bailarinas negras e morenas continuem usando meia-calça rosa ou branca por baixo do tutu.

De qualquer forma, toda pequena evolução deve ser comemorada e eu sou feliz e grata por essa vitória das mulheres não brancas que conquistaram esse direito!

Demorou 200 anos para que isso acontecesse, e ainda precisamos que mais marcas comecem a vender a sapatilha de balé marrom para que as mulheres tenham acesso e facilidade pra compra. Vai, Planeta!

 

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